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Contra a jornada 6×1: não por dádiva!

Trata-se de trabalhar menos para todos (as) trabalharem, e assim reduzir o desemprego

Autor: Ricardo Antunes - Publicado no Jornal da UNICAMP em 12 de março de 2026

Em artigo publicado em agosto de 2025 no Jornal da Unicamp, ao tratar da inteligência artificial (de)generativa, indiquei, sem desenvolver, seis pontos a favor do fim da jornada 6×1 e nenhum contra. Agora que o tema ressurge com força no centro das discussões, vou indicar seus significados mais essenciais para a humanidade.  

Primeiro ponto: a redução da jornada de trabalho – contra a escala 6×1 – ao longo da história, no Brasil e no mundo, se configura como uma das questões mais vitais desde os primórdios de Revolução Industrial na Inglaterra, quando as jornadas eram ilimitadas, chegando por vezes a 16 horas por dia ou mais, inclusive para mulheres e crianças. Foi através de uma longa batalha pelo controle do tempo de trabalho que a classe trabalhadora, mais de um século depois, conquistou a jornada de oito horas diárias.

E o fez através de muitas batalhas, em quase todos os cantos do mundo, que se mantêm até os dias atuais, a partir da explosão celerada da ciberindústria, dos algoritmos e da inteligência artificial (de)generativa.

Como o capital e o trabalho, desde suas gêneses, travam embates diuturnos pelo controle do tempo de trabalho e de vida, foi através dessa ação coletiva, ao longo da história, que se pôde confrontar e se contrapor à exploração ilimitada do trabalho humano.

Segundo ponto: a luta pela redução da jornada ou tempo de trabalho encontra-se no centro das ações do mundo do trabalho contemporâneo, em escala nacional e global, visando a reduzir o desemprego que é consequência da lógica destrutiva do capital e de seu sistema de metabolismo antissocial. 

Foi assim que a luta pela redução da jornada de trabalho converteu-se em poderoso antídoto frente ao monumental processo de redução do trabalho vivo, de modo a reduzir o desemprego. Trata-se de trabalhar menos para todos (as) trabalharem, e assim reduzir o desemprego, minimizando o sofrimento do exército sobrante de força de trabalho que se tornou supérfluo e descartável.

Terceiro ponto: se reduzir a jornada de trabalho foi um passo importante para a redução do desemprego, isso tornou-se também substantivamente relevante para se avançar na autodeterminação, no processo de autonomia real do trabalho. Isto porque, ao lutar pela redução da jornada de trabalho, pode-se indagar e refletir acerca da redução do tempo opressivo existente do espaço laborativo, seja contra o despotismo predominantemente fabril de ontem, seja contra o despotismo invisível dos algoritmos de nosso tempo, cuja inteligência artificial programadora, também invisível, faz do ritmo e do tempo do capital uma biruta tresloucada que avassala o mundo do trabalho, com o olhar certeiro na monetização e na geração da sua sagrada mais-valia.

Quarto ponto: assim, com a eclosão do movimento Vida além do Trabalho, contra a escala 6×1, foi recuperada uma dimensão crucial que nos leva a refletir e avançar mais decisivamente acerca dos sentidos que presidem nossas vidas no trabalho.

E, ao assim fazer, podemos melhor compreender os mecanismos de funcionamento do controle opressivo do capital, que cada vez mais converte o trabalho no tempo dos adoecimentos, acidentes, assédios, depressões, burnouts, suicídios.

Dá para entender, então, por que as grandes corporações financeiras (especialmente no Sul Global) recusam, ao longo da história, tanto a redução da jornada como os direitos conquistados nas lutas e ações da classe trabalhadora. Esse é um debate que vemos se repetir, e hoje não é diferente! Essas corporações imaginam ser possível sonhar com a eternização ilimitada dos privilégios.

Uma indagação central, cuja resposta podemos encontrar embrionariamente em nossa história pré-colonial, nos ajuda a melhor entender esse ponto central: por que as comunidades originárias aqui existentes não se exauriam no labor e trabalhavam somente o necessário para viver? A resposta é cristalina: elas assim atuavam porque almejavam uma vida dotada de sentido, tanto no trabalho, como fora dele, buscando simultaneamente a felicidade, o regozijo e a fruição.

É tudo muito diferente da sociedade colonial aqui instaurada, que nos introduziu a aberração da escravização e, posteriormente, da produção de mercadorias com base na exploração para a acumulação.

Quinto ponto: aqui adentramos outro aspecto crucial, profundamente articulado com o anterior. Se o objetivo do trabalho (e do sistema de metabolismo humano-social)estiver voltado essencialmente para o bem-estar da humanidade, a vida cheia de sentido fora do trabalho estará umbilicalmente conectada com uma vida dotada de sentido dentro do trabalho.

O que nos leva a uma conclusão áspera: não é possível compatibilizar trabalho assalariado, fetichizado e alienado com tempo verdadeiramente livre.

Em outras palavras: uma vida desprovida de sentido no trabalho acaba por obliterar e obstar uma vida cheia de sentido fora do trabalho. Em alguma medida, a vida fora do trabalho estará maculada pela rudeza do espaço laborativo. É por isso que a desfetichização da sociedade do consumo tem como corolário necessário a desfetichização do mundo do trabalho.

Sexto ponto: ao chegarmos a este estágio, adentramos, quase sem perceber, uma dimensão decisiva e que hoje é ainda mais vital, uma vez que diz respeito à sobrevivência da humanidade.

Dá para entender por que as corporações recusam essa batalha: na história, inicialmente, as empresas sempre foram contra a redução da jornada; repudiavam os direitos do trabalhador e recusavam-se aos aumentos salariais, e hoje não é diferente.

Parece, então, legítimo indagar: se vamos trabalhar menos, para vivermos melhor, o que devemos produzir? E para quem? Faz sentido produzir mais energia fóssil? Aumentar ainda mais o aquecimento global, ampliar o extrativismo, as queimadas, gerando mais destruição ambiental? Produzir mais bombas para o regozijo das grandes corporações da guerra?

Então, uma vez mais, será pela ação e pressão popular que esta questão vital poderá ser efetivamente conquistada. E não por dádiva.

Por certo, um pragmático sempre dirá, mas isso é utopia!

Utopos, sim. Mas, nesta era de terror e temor em que adentramos, a possibilidade de uma nova guerra mundial, que enseja, uma vez mais, o espectro do fim da humanidade, será também um completa utopia?

O “novo léxico” empresarial, a derrelição do trabalho e o Supremo Tribunal Federal

No Brasil, vimos esparramarem-se as “falsas” cooperativas, depois a terceirização, inicialmente das atividades-meio e depois das atividades-fim

Autor: Ricardo Antunes - Publicado no Jornal da UNICAMP em 17 de outubro de 2025

Da fraude da “empregabilidade” ao contorcionismo do “empreendedorismo”, estamos presenciando uma fase de profunda derrelição dos direitos e das condições de trabalho no Brasil. 

Podemos recordar o engodo da falta de “empregabilidade” como pretexto para as demissões no passado recente. Quem perdia seu emprego recebia esta justificativa: não havia empregabilidade! Nem o dicionário do mestre Aurélio conhecia esta inusitada palavra, inventada pelo ideário desprezível dos CEOs.

Para eliminar trabalho, era preciso ter uma “explicação”. Esperar que as grandes corporações exibissem coágulos de sinceridade é como imaginar que no deserto do Saara se possa ter gelo o ano inteiro! É por isso que, mesmo quando trabalhadores e trabalhadoras faziam cursos de todo tipo, das especializações às pós-graduações, não tinha jeito: sem “empregabilidade”, uma hora vinha a demissão!

Mas a classe trabalhadora percebeu, algum tempo depois, que seu emprego estava de fato sendo eliminado pelos novos inventos tecnológicos, que são preferencialmente programados para eliminar trabalho vivo. Era preciso, então, “culpar” a classe trabalhadora e responsabilizá-la pelo desemprego, na passagem do taylorismo-fordismo para o toyotismo e sua empresa flexível e enxuta (lean production).

Adentramos, então, uma nova era de financeirização do capital (do arcabouço fiscal que tem a face de calabouço social) impondo a demolição do trabalho regulamentado. Fenômeno global, basta recordar o trabalho contingente e dos jovens que compreendem os cyber-refugiados no Japão, sem esquecer os imigrantes nos Estados Unidos, as maquiladoras no México, o “trabalho atípico” na Itália ou os recibos verdes em Portugal, só para dar alguns exemplos.

No Brasil, vimos esparramarem-se as “falsas” cooperativas, depois a terceirização, inicialmente das atividades-meio e depois das atividades-fim. Todas concebidas, moldadas e calibradas pelo mundo do capital, visando à sistemática corrosão dos direitos do trabalho, que dilapidou ainda mais as condições de trabalho e de remuneração da classe trabalhadora, intensificando os níveis de exploração e de precarização da força de trabalho, da qual cerca de 40% trabalha na informalidade.

Com o neoliberalismo entrelaçado à financeirização, impôs-se também a privatização dos serviços públicos, turbinada pelas novas tecnologias digitais. Os objetivos e os resultados se evidenciam: quanto mais trabalho morto, com algoritmos e inteligência artificial, melhor. Mas como é impossível a eliminação completa do trabalho humano – e este é o calcanhar de Aquiles do capital – urge devastá-lo e depauperá-lo ao limite, eliminando tudo que um dia significou algum direito real.  

Para que tal empreitada fosse efetivada, o léxico do capital ganhou uma impulsão frenética: era preciso adulterar profundamente o sentido etimológico original das palavras pelo novo dicionário empresarial: trabalhadores(as) tornaram-se “parceiros(as)”, “colaboradores(as)”; assalariados(as) converteram-se em “empreendedores(as)”.

A cada nova onda corporativa, a enxurrada de adulterações ganhava mais lustre catártico: “líder”, “times”, “metas”, “gestão de pessoas”, “inovação”, “sinergia”, “resiliência”. Assim, proliferou-se o “novo” palavrório obrigatório da desmedida empresarial. Tudo cuidadosamente concebido para obliterar o assalariamento, como se vê na pejotização e no trabalho uberizado, de modo a recuperar modalidades de trabalhos vigentes nos séculos XVIII e XIX, agora recheadas com sabor algorítmico e digital e, “coincidentemente”, cada vez mais com menos direitos do trabalho.

O resultado é explosivo: mais informalidade, precarização, subemprego, desemprego, trabalho intermitente etc. A terceirização – que no fordismo se restringia à setores como limpeza, segurança, transporte, alimentação –, de exceção, vem se tornando regra (até mesmo no trabalho público) e se amplificando na era da IA, “abrindo a porteira” para formas de contratação como PJ, MEI, microtrabalhos, crowdwork, à margem da legislação protetora do trabalho.

Suas consequências são profundas: como as “metas” são interiorizadas cotidianamente na subjetividade da classe trabalhadora (em substituição ao também nefasto cronômetro taylorista), aflora um resultado assustador: aproximadamente 30% da força de trabalho ocupada no Brasil sofre de burnout, doença que se caracteriza “pelo esgotamento físico e mental relacionado ao trabalho” (conforme dados da Associação Nacional de Medicina do Trabalho – ANAMT), o que nos coloca em segundo lugar no ranking mundial desta doença, que tristemente singulariza nosso tempo.

Adoecimentos mentais, assédios, depressões, suicídios, então, não podem ser efetivamente compreendidos se não se considera a realidade do trabalho precarizado no Brasil atual. O exemplo do trabalho em plataformas é também desolador: na cidade de São Paulo, em média, mais de um entregador por aplicativo morre por dia por acidente de trabalho. E a pesquisa recém-divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 17 de outubro de 2025, mostra que a jornada de trabalho realizada pelos trabalhadores de plataformas vem se ampliando: em 2024 ela foi, em média, 5,5 h mais extensa que a dos demais trabalhadores. É essa a dura realidade do trabalho “moderno” no Brasil.

É nesse cipoal que o STF terá que refletir e decidir, seja ao tratar do Tema 1389, sobre a pejotização, seja ao julgar as demandas do IFood e da Uber que pretendem legitimar essa modalidade de trabalho uberizado e sem direitos no Brasil, desconsiderando tanto as decisões do TST, como o princípio protetor do trabalho que consta do artigo 7º da Constituição de 1988.[1]

Como procederá o Supremo? Será seu nome escrito em maiúsculo, como tem feito na luta contra o golpismo em nosso país, ou será escrito em minúsculo, tornando-se diretamente responsável por uma irreversível regressão na legislação protetora do trabalho no Brasil?

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[1] Sobre os direitos dos trabalhadores em plataformas digitais, ver o recém-publicado Direitos de verdade: essa história também é sobre você. São Paulo: Boitempo, 2025, distribuição gratuita. Sobre as decisões de tribunais europeus e os processos de regulamentação no Brasil ver Trabalho em plataformas: regulamentação ou desregulamentação? São Paulo: Boitempo, 2024, distribuição gratuita. Ver também a campanha pública informativa do Ministério Público do Trabalho-15ª. Região, resultado de  Projeto conjunto com o Grupo Mundo do Trabalho e suas Metamorfoses, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, disponível em http://www.direitosdeverdade.com.

Um gênio do drama social moderno

O cineasta Ken Loach ao receber o título de Doutor Honoris Causa, concedido pela Universidade de Bolonha (Itália), no King’s College, em Londres

Autor: Ricardo Antunes - Publicado no Jornal da Unicamp em 09 de dezembro de 2025

Escrevo as primeiras notas deste artigo recorrendo à memória, uma vez que me encontro em atividade no exterior e, por uma coincidência especial, acabo de presenciar uma cena tão inimaginável quanto memorável.

Como faço há muitos anos, no início de novembro, participei de uma Conferência Internacional realizada na Universidade de Londres, cujo objetivo central é discutir as questões cruciais do nosso tempo.[1]

Durante a referida atividade, soube que o grande cineasta Ken Loach receberia o título de Doutor Honoris Causa, concedido pela Universidade de Bolonha (Itália), em 11 de novembro, e que, por conta da idade de Loach (89 anos), a honraria lhe seria entregue pessoalmente no King’s College, em Londres. Isso me permitiu conhecer essa figura tão especial.

Seria impossível, no espaço deste artigo, tratar de sua monumental produção. Só para efeito de ilustração, recordo de dois de seus filmes que, por seu vigor, oferecem uma fotografia viva da vida cotidiana no trabalho no mundo atual.  

Começo por Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake, 2016), que se tornou exemplo do drama social gerado pela devastação neoliberal. O filme traz a história trágica de um trabalhador idoso e talvez seja a película mais emblemática do diretor no que tange ao significado profundamente destrutivo do capitalismo contemporâneo para o trabalho e para a subjetividade humana.

Depois de várias décadas dedicadas ao labor, Blake, na hora de cuidar de sua saúde, por conta dos adoecimentos e padecimentos que macularam sua vida no trabalho, vê desvanecer a possibilidade de cuidar de si. Já idoso, o personagem embrenha-se em uma busca inglória por um tratamento. E o horror começa quando se defronta com uma máquina digital programada para dificultar, ao invés de beneficiar, os trabalhadores, particularmente os idosos.

O desfecho da película não poderia ser outro: a tragédia lhe custa a própria vida. Filme britânico, mas profundamente global, nele florescem, junto às tantas mazelas e infortúnios, também as múltiplas formas de solidariedade, presente na luta da amiga-companheira do personagem e de tantos companheiros que se comoveram com sua batalha de desfecho inglório.

Outro estonteante filme de Ken Loach é Você Não Estava Aqui (Sorry We Missed You, 2019), que mergulha profundamente nas tantas mazelas que configuram o trabalho em plataformas, em célere expansão pelo mundo.

Em poucas palavras: o filme trata de uma família em que o marido se tornou um trabalhador uberizado (entregas de e-commerce) e a esposa, trabalhadora também plataformizada, atua no trabalho do care, dos cuidados. Eles têm um filho, jovem estudante, que vai vendo, pouco a pouco, desvanecer o feliz núcleo microcósmico familiar, corroído indelevelmente pelo flagelo das condições do trabalho em plataforma.

Há cenas emblemáticas já nos primeiros minutos do filme, por exemplo, quando o trabalhador ingressa felizardo na plataforma, e, imbuído pelo novo “espírito empreendedor”, decide adquirir um automóvel próprio, financiado, imaginando um futuro próspero em sua nova fase. O resultado é desastroso… Depois, há cena em que o gestor da empresa de e-commerce orienta o novo “empreendedor” (em verdade, um potencial candidato a assalariado ultra-precarizado) a levar consigo uma garrafa pet vazia em seu veículo. Mas por que devo levar uma garrafa vazia?, indaga o trabalhador. O gerente, duro e rústico, diz que ele compreenderia a utilidade em breve.

Não foram necessárias muitas horas para que o trabalhador entendesse que aquela garrafa era vital em seu labor cotidiano. Dado o ritmo extenuante desse tipo de trabalho, sob o comando turbinado dos algoritmos, logo iria aflorar a absoluta urgência: nesta modalidade “moderna” de trabalho, não há nem local e nem tempo para urinar… Assim como não há nem tempo nem espaço para se alimentar, repousar, tomar banho, isto é, aquilo que é basilar para a humanidade, mas de que o trabalhador uberizado é tolhido.

Assim, em pouco tempo, a vida do personagem vai se destruindo e, junto com ele, a sociabilidade familiar. A companheira, trabalhadora dos cuidados, teve que vender o seu automóvel para pagar as dívidas do marido e viu evaporar o transporte que lhe era imprescindível para realizar seus múltiplos atendimentos. E, como se isso não bastasse, nesta modalidade de trabalho completamente desprovida de direitos[2], o filho do casal, ao vivenciar o terrível drama dos pais, acaba por se rebelar e vê soçobrar os laços de solidariedade e de afeto anteriormente existentes entre os membros da família. Dos tantos filmes de Ken Loach, Você Não Estava Aqui é dos um dos mais duros, como se constata em sua cena final, quando afloram o isolamento, o desespero e a desesperança.

De outro lado, solidariedade, vida coletiva, esperança, a luta por um outro mundo, isso é o que não falta na monumental obra fílmica de Loach. Há a ação solidária que transborda, por exemplo, em Pão e Rosa (Bread and Roses, 2000) — em que se retrata uma greve das mulheres trabalhadoras imigrantes contra suas precárias condições de trabalho — e em Terra e Liberdade (Land and Freedom, 1995), sobre a Guerra Civil Espanhola; bem como no documentário The Flickering Flame, de 1996, que estampa a Greve dos Portuários ingleses, derrotados pelo “trabalhista” Tony Blair (que, no Reino Unido, era conhecido na esquerda como Tory Blair), dentre tantos outros filmes que marcam sua obra.[3] 

Ken Loach é, para muitos, em todo o mundo, o maior gênio vivo do drama social contemporâneo.

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[1] Trata-se da 22ª HM Conference (Historical Materialism Conference), realizada na School of Oriental and African Studies (SOAS), que, em 2025, contou com quase 1500 pesquisadores e estudiosos oriundos de todos os quadrantes do mundo. E essa conferência ocorrerá pela primeira vez no Brasil (e na América Latina) em 15,16 e 17 de julho de 2026 na UFRJ – a HM Rio.

[2]  Ver Direitos de Verdade – Essa história também é sobre você, Boitempo, 2025, distribuição gratuita, resultado do Convênio entre o MPT-15 e o Grupo de Pesquisa Mundo do Trabalho e suas Metamorfoses (GPMT-IFCH), em https://direitosdeverdade.com/

[3]  Um estudo qualificado sobre parte da obra de Ken Loach encontra-se em Medina, Cintia, A trágica racionalidade do capital no cinema de Ken Loach, Tese de Doutorado em História Social, USP, 2023.

 

O espectro da uberização e o breque dos apps como insubmissão

Essa crise se ampliou entre 2008 e 2009 e se agravou, mais recentemente, com a eclosão da pandemia de covid-19. Os resultados desse cenário se espalham como praga

Autor: Ricardo Antunes - Publicado no Jornal da UNICAMP em 16 de setembro de 2025

Nestes tempos de expansão ilimitada das grandes plataformas digitais, um novo espectro ronda o mundo do trabalho: o espectro da uberização. O que levou à emergência desse novo fenômeno global, que afeta tão profundamente o trabalho?

Sua gênese tem várias causas, mas remonta sobretudo à crise estrutural do capital, desencadeada em 1973, depois da derrota das lutas operárias e sociais de Maio de 68 na França (ações que se espalharam por vários países) no ano que abalou o mundo. Essa crise se ampliou entre 2008 e 2009 e se agravou, mais recentemente, com a eclosão da pandemia de covid-19.  

Os resultados desse cenário se espalham como praga. Embaladas por uma tríade destrutiva que combina neoliberalismo, reestruturação produtiva permanente e financeirização, vimos a explosão do desemprego e a expansão das grandes plataformas digitais, numa simbiose responsável pelo advento da uberização.

Seus resultados estão evidenciados: informalidade ilimitada e desproteção social absoluta em relação à legislação do trabalho, que nos empurraram para o trabalho uberizado, variante laborativa que caiu como um bálsamo para as grandes plataformas digitais, uma vez que reintroduziram jornadas ilimitadas de trabalho que remetem aos séculos XVIII e XIX, acarretando, dentre tantas consequências nefastas, uma sistemática destruição do corpo produtivo de trabalhadores e trabalhadoras.[1]

Basta ver o número de acidentes e mortes por dia na cidade de São Paulo, ou ainda a precariedade de suas condições de alimentação: uma aberração, sintetizada no fato de que trabalhadores  entregam a alimentação da qual só conseguem sentir o cheiro.

Foi assim que, pouco a pouco, silenciosamente e sem alvoroço, as “novas” modalidades de trabalho foram sendo paridas. O golpe de mestre veio na sequência, pois urgia deslanchar uma “nova” fase ainda mais precarizada, urdida em grandes escritórios de advocacia corporativa global, sem esquecer da compulsão celerada dos CEOs, associação que acabou por consumar o embuste.

Para o golpe se efetivar, foi preciso criar uma aparência de autonomia, de modo que o assalariamento fosse mascarado, para obliterar sua real condição. Foi assim que se gestou a uberização do trabalho.  

Beneficiadas diretamente pela expansão dos algoritmos e do trabalho digital, as grandes plataformas estampavam, ao mesmo tempo, a heterogeneidade presente nas distintas modalidades de trabalho, para melhor “esconder” o nefasto traço de homogeneidade que as particulariza: a de exercitar uma precarizaçãoilimitada da força de trabalho.  

Compreende-se, então, porque as plataformas da predação “moderna” se recusam a aceitar o cumprimento dos direitos do trabalho e, assim, aviltam atividades que já eram limitadas e intensificam ainda mais seus níveis de exploração.

Veja-se o depoimento de um motoboy do Rio de Janeiro sobre o trabalho em plataformas:

[…] as empresas eram terceirizadas e prestavam serviço para as grandes redes delivery, como Bob’s, McDonald’s, Girafas, então nós tínhamos os direitos trabalhistas, nós tirávamos aí por quinzena R$ 4,5 mil. Hoje, pra eu tirar R$ 4 mil reais, eu tenho que trabalhar em dois turnos, (…) eu trabalhei até quatro horas da manhã. Por quê? Porque, hoje, a gente ganha o valor de uma gorjeta. Para tu vê, ontem eu peguei uma entrega no Centro do Rio de Janeiro para levar lá no Humaitá, na Lagoa, na Zona Sul por R$ 4,90.[2]

 Ou, ainda, o depoimento de uma motorista de aplicativo:

“Hoje eu trabalho, no mínimo, 12 horas. Geralmente, ultrapassa e chega a 16 ou 18 horas. Já teve dia de chegar a 32 horas direto. Mas isso é uma questão às vezes de meta, uma semana você tem uma conta a mais, você tem alguma coisa com propósito e eu acabo dobrando um pouco mais. Mas no mínimo é 12 horas.[3]

O que as grandes plataformas digitais não imaginavam é que,ao introduzir a escravidão digital,[4] em pleno século XXI, pudessem impulsionar ações e lutas deflagradas pelo novo proletariado de serviços da era digital, de que são exemplos o breque dos apps de 1º de julho de 2020, deflagrado em plena pandemia, e, mais recentemente, dos dias 31 de março e 1 de abril de 2025, sendo esta última data simbolicamente escolhida por ser o Dia da Mentira!

Se o novo espectro da uberização impregna o mundo do trabalho, ele faz aflorar um outro espectro, o da insubmissão presente no breque dos apps.

Aqui e alhures.      

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[1] Ver as pesquisas realizadas pelo Grupo de Pesquisa Metamorfoses do Mundo do Trabalho (GPMT) do IFCH/UNICAMP, em Antunes, R. (org.), Icebergs à deriva: o trabalho nas plataformas digitais (São Paulo, Boitempo, 2023) e Uberização, trabalho digital e Indústria 4.0 (São Paulo, Boitempo, 2020).

[2] Antunes, R.; Gonsales, M.; van der Laan, M. Platform Capitalism: Experimental Laboratories and the Struggles for the Regulation. Inequalities, vol. 2, maio 2025.

[3] Antunes, R.; Gonsales, M.; van der Laan, M. Capitalismo de plataforma: los laboratorios de experimentación y las luchas por la regulación del trabajo uberizado. In Stecher, A.; Morales, K. (Orgs). Plataformas digitales de trabajo en América Latina: Organización productiva, desafíos regulatorios, acción colectiva y subjetividades. LOM, abril, 2024.

[4] Antunes, R.; O Privilégio da Servidão. (São Paulo, Boitempo, 2020).

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Fotografia por: Rafael Vilela

Inteligência Artificial (de)generativa e jornada 6×1

A síntese é límpida: eliminação de trabalho vivo, em uma gama enorme de atividades, substituídos pelo trabalho morto, como se vê na ciberindústria

Autor: Ricardo Antunes - Artigo publicado em 12 de agosto de 2025 no jornal da UNICAMP.

Na era da expansão dos algoritmos e da Inteligência Artificial (IA), qualquer previsão sobre o futuro do trabalho corre o risco de ser mais um embuste. Impulsionada pela financeirização do capital, a IA é explícita em seu objetivo: transferir para as máquinas inteligentes tudo que hoje é realizado pelo trabalho humano. Alguém poderia dizer: mas isso não é bom? Não teremos trabalhos mais qualificados, mais “criativos”, vivenciando um mundo laborativo mais humano e mais tempo de vida?

A resposta está nas atividades que se expandem nas sombras da IA, com seus microtrabalhos ultraprecarizados, especialmente (mas não só) no Sul Global. Realizando jornadas ilimitadas, excluídos de todos os direitos do trabalho, recebendo níveis de remuneração indigentes, de modo a gerar informações para a IA. E quem encontra trabalho nas startups está experimentando uma “invenção” chinesa (o S-996): jornadas das 9 da manhã às 9 da noite, 6 dias de trabalho, totalizando 72 horas semanais. Eis os novos experimentos que se expandem neste admirável mundo do trabalho na era da IA.

A síntese é límpida: eliminação de trabalho vivo, em uma gama enorme de atividades, substituídos pelo trabalho morto, como se vê na ciberindústria. Mas, atenção, há luz no fim do túnel para os descartáveis e os supérfluos: sobreviver por meio do trabalho uberizado, que se expande globalmente nas plataformas digitais. Plataformas que se utilizam do mito do “empreendedorismo” visando proletarizar ao limite, mas se recusando a reconhecer a condição de assalariamento; impondo, através do “comando invisível dos algorítmicos”, jornadas prolongadas, além de vedar peremptoriamente qualquer forma de proteção do trabalho. Tendência que defini, em O Privilégio da Servidão, como nova era de escravidão digital (Boitempo, 2020). E que os CEOs, esses novos predadores digitais, consideram como sendo “moderna”.

Um aparente paradoxo aflora, e um novo espectro se avizinha: com a expansão celerada da IA generativa, sem controle e sem regulamentação, estamos presenciando, em plena era digital, a retomada de modalidades pretéritas de trabalho, pautadas pela trípode exploração, expropriação e espoliação, vigente no início da Revolução Industrial. O crowdsourcing, hoje, é uma variante digital e algorítmica do velho outsourcing, no qual homens, mulheres e crianças trabalhavam à margem da legislação protetora do trabalho, com jornadas ilimitadas e condições de trabalho desumanas.[1]

Estamos, então, frente à IA generativa? Ou adentramos perigosamente na fase da IA degenerativa, concebida e plasmadapelo sistema de metabolismo antissocial do capital?

Sabemos que a tecnologia foi, desde sua gênese, resultado da inventividade humana, que nasceu com o primeiro microcosmo familiar. Com o advento do capitalismo, a tecnologia foi se metamorfoseando e adequando ao modus operandi do capital. Toda “inovação” é para de fato valorizar mais e, assim, acumular muito mais!

Podemos assim vaticinar o resultado em relação ao trabalho: um novo espectro ronda o mundo do trabalho, o espectro da uberização. Mas erra quem pensa que não há resistência.

6X1: 6 pontos contra e nenhum a favor

Foi durante a campanha eleitoral de 2024 que nasceu o movimento VAT/Vida Além do Trabalho, contra a jornada 6X1, contemplando dimensões centrais da vida cotidiana,  que resumo a seguir: 1) a redução da jornada de trabalho se configura como uma ação central da classe trabalhadora para minimizar a lógica destrutiva do capital, uma vez que acarreta, de imediato, a redução do desemprego; 2) constituiu-se em antídoto real à exploração, tanto absoluta como relativa do trabalho, como no início da Revolução Industrial (com o ludismo); 3) opõe-se, em alguma medida, ao despotismo fabril das eras taylorista/fordista e toyotista e, hoje, ao trabalho uberizado. Vale recordar o excepcional breque dos apps, de 31 de março e 1 de abril (dia da mentira) de 2025, contra o despotismo algorítmico, mais invisível, mais interiorizado, que invade sorrateiramente nossa vida e nosso trabalho; 4) lutar contra o 6×1 possibilita também vislumbrar outro ponto crucial: uma vida desprovida de sentido no trabalho é incompatível com uma vida cheia de sentido fora do trabalho[2]; 5) o que nos leva a sonhar com o fim das barreiras entre tempo de trabalho e tempo livre e, ancorados em outra forma radicalmente distinta de IA, vislumbrar uma nova sociabilidade emancipada, autodeterminada, com indivíduos livremente associados, fora dos constrangimentos do capital;6) por fim, ao lutar pela redução da jornada, poderemos indagar: produzir o quê? E para quem?

Assim, o mundo do trabalho se entrelaça, decisivamente, com outro imperativo crucial de nosso tempo: impedir a destruição da natureza, como nossos povos originários nos ensinaram.  

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[1] Ver Icebergs à Deriva: o trabalho nas plataformas digitais (Antunes, R., Organizador, Boitempo, 2023) e Uberização, Trabalho Digital e Indústria 4.0 (Antunes, R., Organizador Boitempo).

[2] Ver Os Sentidos do Trabalho, edição especial de 25 anos (Boitempo, 2025), particularmente o capítulo X.

A vacina na sociedade de clastas

A vacina na sociedade de Clastas
por Flávio Lima
Passaram-se quase seis meses do início da “campanha da vacinação” no Brasil, e as “manobras” realizadas via decretos e leis municipais e estaduais (e pelos “jeitinhos”) para incluir categorias no grupo “prioritário” de vacinação, vão desmascarando a farsa que é o planejamento de imunização por idade e revelando, pela prática, quem são as categorias consideradas prioritárias na sociedade de castas que estrutura esse país.
Vou descrevê-las:
De um lado, sobressaem-se os Brâmanes. Também conhecidos como a categoria, já vacinada, dos profissionais da linha de frente ou por serem altamente prestigiados e bem pagos.
Na sequência, vêm os xátrias ou a categoria dos profissionais de serviços burocráticos de hospitais, escolas e departamentos públicos, além dos psicólogos, médicos veterinários e, claro, os necessários profissionais de educação física.
Os prioritários!
No meio localizam-se os Vaisyas, que não serão devidamente especificados pois ou burlaram a fila contrabandeando, sem sucesso, vacina (falsa) nas Minas Gerais, ou falsificaram documentos com um Brâmanes amigo, ou foram para Miami. Inclusão e imunidade são essenciais!
Do outro lado do oceano, encontram-se os Sudras, conhecidos por todos como trabalhadores de setores de serviços ou os “essenciais”. Não pararam em nenhum momento durante a pandemia, afinal, alguém tem que servir as castas de cima. Os trabalhadores dos supermercados, os frentistas de postos de gasolina e os trabalhadores da limpeza dos hospitais são os exemplos mais descritivos pois, além de não terem parado durante a pandemia, tentaram se incluir na fila da vacina achando que eram “linha de frente”. Polêmicos!!! Não sabem da ordem classificatória na sociedade de castas?
Completam a lista os Dalits, aqueles que, por viverem de seu trabalho nas “margens” (por conta própria ou na informalidade), nem categoria são. Esses nem polemizar podem!
Deste lado do oceano, ambos são penalizados duplamente pelos que decidem quem deve vacinar primeiro: além de caírem no “esquecimento” e, diante disso, estarem fadados à morte (se não for de Covid, de Fome), são lançados diariamente ao abate pelas medidas que não enfrentam de fato os riscos de exposição.
O exemplo mais gritante e corriqueiro são dos transportes coletivos na maioria das cidades que, ao invés de ampliarem a frota para circulação, a diminuem em 30 ou 50% e submetem os trabalhadores - que não têm outro meio de locomoção e outra opção a não ser enfrentar aos riscos, a contraírem o vírus nesses espaços. Há quem, diante disso, reaja com indignação ao o transporte de cargas de animais.
Juntos, Sudras e Dalits seguem na parte de baixo do sistema, impossibilitados de se confinarem e sem vacina, carregando o país nas costas. Mas sem muito frenesi, afinal, “a economia não pode parar”!
Definitivamente, não é a exposição nem a preocupação com a vida coletiva a prioridade neste país. E, claro, a vacina é apenas o produto de uma problemática antiga, que hoje se agrava com as medidas individualistas, seletivas e desastrosas e seus traços neoliberais.
As respostas ao sistema (que exclui, submete ao medo, à opressão e à exploração os trabalhadores) e aos pandemônios (que potenciam as desigualdades e nos matam) devem ser coletivas. Assim como qualquer medida que coloque no centro uma saída coletiva desta pandemia ao conjunto de trabalhadores.
Então, ou desnaturalizamos tudo isso e restauramos o caráter reivindicatório sobre os fundos e o papel do Estado - o deve passar pelas lutas –, ou continuaremos com as migalhas: da vacina e do que sempre nos sobra na sociedade de castas.
Caso contrário, preparemo-nos para o abate até atingirmos, às custas dos grupos não prioritários para receber a vacina, a imunidade de rebanho!

Nota de REPÚDIO do Grupo de pesquisa Poiesis e Alquimia Feministas à condução do processo Mari Ferrer

Nota de REPÚDIO do Grupo de pesquisa Poiesis e Alquimia Feministas à condução do processo Mari Ferrer
 
Quantas vezes um homem, cansado após um dia de trabalho, precisou se sentar diante de uma tela em branco e dispor um pouco mais de sua energia e tempo para redigir uma nota de apoio a outro homem zdesconhecido, mas que precisava do seu apoio por ter sido humilhado pelo Estado em punição por ter tido o seu corpo sexualmente violado?
Quantas vezes esse mesmo homem hipotético, depois da segunda interrupção logo após ter iniciado sua tentativa frustrada de redigir a nota, se deu conta de que ainda lhe restava algumas horas de trabalho pela frente naquele dia, afinal, ainda tinha a janta para fazer, a roupa para recolher e os filhos para banhar antes de irem pra cama?
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Dentre tudo o que nos exaure quando somos mulheres em um mundo de homens, ainda precisar lutar por sobrevivência e dignidade talvez seja, de longe, o que mais nos fira e abata o espírito. Mas seguimos, exaustas, disputando o lugar ao sol que nos é reiteradamente dificultado. E seguiremos, machucadas, nos apoiando umas às outras e reafirmando as obviedades negadas, como o fato de que não, NÃO existe estupro culposo.
Curiosamente desde que houve o pronunciamento do Ministério Público de Santa Catarina em relação à absolvição de André de Camargo Aranha, para observar que o argumento "estupro culposo" não fora utilizado nas alegações do processo promovido pelos representantes de Mariana Ferrer, parece ter havido mais conforto para pessoas (em sua maioria homens) deslegitimarem o levante mulherio ocorrido nas redes sociais, no dia 04/11/2020, após divulgação do The Intercept. E o que é pior: minimizando, direta ou indiretamente, toda a revolta pela humilhação e assédio moral a que foi submetida Mari Ferrer em julgamento em que era vítima. Esse tratamento inaceitável passou a ser relativizado e invisibilizado em prol de termos técnicos e, para muitos, tudo não passou de mero exagero. Blefe. Grandiosa mentira. Pura histeria, disseram rindo alguns. Estratégia antiga sustentada na degradação sistemática se nossa figura e na deslegitimação de nossa voz e existência. Uma perversa atualização da antiga categorização de "loucas", na tentativa de minimizar o acontecido e naturalizar nossa objetificação, exploração e desvalor.
Em primeiro lugar, importa destacar que, em momento algum, o The Intercept afirmou que a expressão "estupro culposo", inexistente na legislação brasileira, constava nas alegações do processo. A propósito disso, a argumentação de que não houve dolo no ato sexual praticado por André de Camargo Aranha, uma vez que o homem não teria como identificar o estado de vulnerabilidade de Mari Ferrer, baseada no princípio in dubio pro reo, parece permitir a interpretação ASSOCIATIVA a partir do conceito de "homicídio culposo" (Artigo 121, §3º do Código Penal Brasileiro), justificando, portanto, o emprego crítico da expressão “estupro culposo” por parte do jornal. 
Fato é que a interpretação e veiculação da expressão nas mídias denuncia o que realmente se trata: na naturalização dos atos de violência e violação de direitos das mulheres que ocorrem de modo sistemático e estrutural em nosso país, cujas raízes são profundas. O estupro foi instituição fundacional da sociedade brasileira. E há mais de 500 anos, esse importante mecanismo de coerção tem manchado nosso território com nosso sangue, sendo amplamente utilizado para instaurar e perpetuar a estrutura de poder e exploração. E é isso que está em jogo: o caráter estrutural do estupro e o quanto ele atravessa as instituições de direito, corroendo as possibilidades de democracia efetiva.  
Somos muitas Mari Ferrer submetidas, cotidianamente, à coerção, ao medo, à violência e ao sofrimento. Somos muitas Mari Ferrer, pois, a cada 8 minutos, 1 pessoa sofre estupro em território nacional, segundo o Anuário de Segurança Pública. Somos muitas Mari Ferrer, pois a violência que ela passou não se resume à sua história biográfica. Ela reverbera hoje em angústia, medo e revolta em cada peito de mulheres cansadas, exauridas, em função desde a divisão desigual do trabalho até a exaustão de ver/sentir a repetição da ação nefasta dos vetores de opressão que nos ceifam direitos, vidas, saúde, potência e possibilidades existenciais. E, desta (outra) vez, com respaldo da justiça que não apenas reifica a violência como a fomenta, vulnerabilizando ainda mais cada mulher brasileira.
Espanta o modo como o Poder Judiciário (e algumas personalidades públicas, como é o caso de Gabriela Prioli) desviou o foco do debate — a saber, os caminhos argumentativos percorridos para o veredicto final negativo —, ao apontar o suposto problema técnico da expressão viralizada. É evidente que as redes sociais têm poder tsunâmico para bem e para mal, o que significa, em certa medida, a atualização da antiga brincadeira do telefone sem fio. Contudo, outro óbvio precisa ser dito: não se trata de uma brincadeira. Embora não seja possível prever e controlar os desdobramentos dos dizeres e movimentos e possíveis desvios de informação aconteçam, também não é possível aceitar que esse fato seja utilizado como estratégia de silenciamento do problema. Aproveitar-se desse inevitável para relativizar a importância e o direito de problematizar a base argumentativa que absolveu André de Camargo Aranha é um gesto típico da cultura misógina a que estamos submetidas. Nesse cenário, lembrar-nos de que tudo é uma questão de linguagem torna-se imprescindível. 
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Se observamos casos em que homens foram condenados por muito menos que Aranha, como, por exemplo, o de Luiz Alves de Lima, ex-cobrador de ônibus que foi acusado, pela justiça do Espírito Santo e pela lei moralista (da barbárie) do então senador Magno Malta, de pedofilia por estuprar a filha de dois anos em 2009, temos a prova de que a legislação brasileira permite brechas de maneira que uma sentença dependerá da pessoa encarregada de interpretá-la e de seus interesses de classe. Não são raros e nem poucos os casos em que o violador saiu impune. A justiça que deveria garantir leis e proteção funciona como uma espécie de "carta branca" para violação e atos de violência ao mesmo tempo que legitima a lógica patriarcal que oprime e mata todos os dias. 
É evidente e sabido: questões de classe/raça/gênero e seus intrínsecos jogos de poder e domínio são acionados durante processos criminais. Porém, basta surgir uma crítica que desmonte a cortina de fumaça em torno da suposta neutralidade da lei para surgirem especialistas em defesa da razão e das questões técnicas, como se tudo fosse simples aplicação técnica. Mulheres, mulheres, menos emoção, mais razão, dizem. Querem mais? 
Resta, agora, não permitir que o debate esmoreça até cair na profunda vala do esquecimento, como fazem com todos os assuntos de interesse das mulheres.  
Seguir e lutar passam a ser verbos necessários para garantir nossa existência. Ser mulher em uma sociedade misógina exige esforço alquímico de extrair força neste cenário para repudiar as injustiças que nos assolam. 
Assim, nós, pesquisadoras do grupo Poiesis e Alquimia, reiteramos nosso REPÚDIO à condução do processo que absolveu André de Camargo Aranha.

Ricardo Antunes comenta sobre a configuração do proletariado em tempos de pandemia

O proletariado em tempos de pandemia * ** 
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As medidas econômicas necessárias para lidar com os efeitos da pandemia, em qualquer país, não são simples. E há apenas uma certeza quanto a elas: a sua eficiência, a sua chance de dar bons frutos – salvar a vida da maioria da população não apenas do vírus, mas da fome – vai depender profundamente do terreno com que se deparar. É o que éramos até aqui que vai definir o que poderemos ser durante e depois da pandemia.
Nos países em que a maior parte dos trabalhadores vivia ainda num ambiente de formalidade, resguardado por direitos e contratos, tais medidas serão mais eficientes, porque o socorro do Estado se dará dentro de estruturas mais consolidadas. No entanto, quando o vírus se depara com uma realidade em que metade dos trabalhadores se divide entre a informalidade e o desemprego, seus efeitos certamente serão mais devastadores e, consequentemente, as medidas contra a pandemia serão mais difíceis.
É assim que o Brasil vai enfrentar o coronavírus: com 50 milhões de pessoas que não estão protegidas por um contrato de trabalho. E ainda mais: com uma outra parcela, provavelmente de igual tamanho, de trabalhadores formais em condições absolutamente precárias, porque o movimento das “reformas” nos últimos anos foi no sentido de deixar o emprego formal cada vez mais parecido com a informalidade, “flexibilizando” direitos e, assim, deixando os trabalhadores mais vulneráveis às crises.
Portanto, para entender como os trabalhadores vão enfrentar a pandemia e, mais ainda, como estarão ao final dessa jornada trágica, é muito importante entender o que vinha sendo gestado, em termos de precarização das condições de trabalho, nos últimos anos. Passa por aí, obviamente, grande parte da angústia que tantos de nós sentimos neste momento, diante do risco de demissão, do corte de salários, da impossibilidade de buscar emprego, da paralisação das atividades informais e do sorriso cretino dos piores patrões que aproveitam o momento para demitir trabalhadores.
Poucos autores podem nos ajudar a entender o arco dessas questões, do ponto de vista dos trabalhadores, como o sociólogo Ricardo Antunes, professor da Unicamp. Sua obra, há quatro décadas, cumpre, com densidade teórica e compromisso de classe, a função importantíssima de pensar a nossa realidade à quente, no meio do furacão de transformações que a classe trabalhadora, não apenas no Brasil, tem enfrentado nas últimas décadas. Mobilizando em seus textos conhecimentos de diversas áreas, Antunes atravessa os debates da economia política, da filosofia, da sociologia, da história, do direito, da saúde, da política, na melhor tradição marxista, para criticar e esclarecer as formas assumidas pelo enfrentamento entre capital e trabalho.
Com livros como Classe operária, sindicatos e partidos no Brasil (1982), A rebeldia do trabalho (1988), Adeus ao trabalho? (1995), Os sentidos do trabalho (1999), A desertificação neoliberal do Brasil (2004), O caracol e sua concha (2005) e O continente do labor (2011), entre diversos outros, individuais e coletivos, traduzidos para outras línguas, frutos a um só tempo de atividade docente, pesquisa e militância política, que têm influenciado diferentes gerações de pesquisadores, a obra de Antunes é indispensável para entender como chegamos a esse quadro de profunda vulnerabilidade dos trabalhadores diante das decisões de um governo e das investidas de um vírus. Digo isso para destacar, aqui, seu livro mais recente, O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital, lançado pela Boitempo em 2018, e também a série Riqueza e miséria do trabalho no Brasil, coordenada por Antunes para a mesma editora, que teve seu quarto volume lançado recentemente.
O primeiro volume de Riqueza e miséria do trabalho no Brasil foi lançado em 2006, reunindo textos que logo se tornariam referência para os debates sobre os rumos do mundo do trabalho entre nós. De nomes como István Mészáros, Luciano Vasapollo e Márcio Pochmann aos de jovens pesquisadores brasileiros, os autores reunidos por Ricardo Antunes se empenham em municiar não apenas outros pesquisadores, mas os próprios trabalhadores na luta contra o capital, explicando as transformações, refletindo sobre suas consequências e também apontando os caminhos para a resistência, inclusive com pesquisas específicas sobre determinadas empresas e categorias. O segundo (de 2013) e o terceiro (de 2015) volumes ampliaram essa rede, trazendo sempre mais contribuições densas, precisas e combativas para a compreensão dos desafios de nossa época. No conjunto, entre suas muitas qualidades, tais coletâneas cumprem a tarefa de levar a um público mais amplo o resultado de pesquisas acadêmicas, além de antecipar reflexões urgentes sobre os direitos e a organização dos trabalhadores.
O quarto volume da série, lançado em 2019, seguindo essa trilha, é dedicado à reflexão sobre as transformações que o “trabalho digital” impõe aos trabalhadores, que agora, em grande parte, passam a compor uma espécie de “infoproletariado” (ou “ciberproletariado”) em todo o mundo. Os artigos exploram os mais diversos aspectos dessas transformações em curso, passando por temas como a expropriação do tempo de trabalho e de vida por empresas globais, a explosão do trabalho intermitente, as relações de gênero e classe, as novas formas de adoecimento dos trabalhadores, os desafios para a juventude que trabalha, o mito do “empreendedorismo”, as greves e outras formas de luta da classe trabalhadora. A cada novo volume (e a série deve continuar), Riqueza e miséria do trabalho no Brasil se consolida como uma enciclopédia viva e indispensável dos embates entre capital e trabalho em nossa época. Confiram.
É também sobre o trabalho na era digital que escreve Ricardo Antunes em O privilégio da servidão. Num momento tão negativo para a classe trabalhadora, é um grande alento saber que esse livro, cuja segunda edição saiu da gráfica quando a pandemia já se espalhava pelo Brasil, teve sua primeira edição e duas reimpressões esgotadas em menos de dois anos, desde o lançamento em 2018. A meu ver, esses dados, além de confirmarem a importância do livro e da obra de Ricardo Antunes para o debate sobre o trabalho entre nós, é sinal da urgência de sua reflexão.
O privilégio da servidão se divide em quatro partes, que, juntas, cobrem os principais eixos da questão: começa pela investigação do perfil assumido pelo proletariado na era digital; debate o impacto da precarização, da terceirização e da crise do sindicalismo; a dinâmica de conciliações, rebeliões e contrarrevoluções; e conclui questionando o futuro dos sindicatos e do socialismo na América Latina. Em cada um desses eixos, sem fugir do debate teórico de cada ponto, Antunes estuda em detalhes a complexa teia de fatores que afetam – de modo novo, mas igualmente destrutivo – os trabalhadores nessa época em que a servidão é um privilégio.
O título do livro remete justamente ao aspecto mais assustador do trabalho em nossa época de “uberização”, de “contratos de zero hora”, de “intermitência”, em que os trabalhadores são obrigados a oscilar “entre o desemprego completo e, na melhor das hipóteses, a disponibilidade para tentar obter o privilégio da servidão”, porque, nesse quadro de absoluta desproteção, receber a notificação do aplicativo para trabalhar por algumas horas converteu-se num privilégio, numa espécie de sorte para o trabalhador que assume todos os riscos da atividade econômica, mas nada decide sobre ela. Quando seus direitos são derrubados quase por completo, é um privilegiado esse trabalhador que consegue se encaixar nos padrões da “economia dos bicos”, porque nem todos estão aptos a fazer tais “bicos”, seja em razão da qualificação exigida ou da necessidade de ter um carro. (Recomendo, aqui, o filme de Ken Loach, “Você não estava aqui”.)
É claro que ler o livro de Ricardo Antunes e pensar sobre essas questões enquanto o noticiário fala das medidas que o governo está apresentando para “salvar empregos e socorrer informais” durante a quarentena – reduções de salário para uns, benefícios abaixo do salário mínimo para outros – deixa tudo ainda mais dramático, porque os exemplos que saltam à cabeça somam-se aos do livro (e o autor não podia prever que ele circularia junto com o coronavírus!) para não deixar dúvida de que estamos diante de um momento crítico para os trabalhadores e, consequentemente, para toda a sociedade, porque as consequências da precarização transcendem a relação de cada trabalhador com o aplicativo-patrão. Num momento em que a economia do país é obrigada a parar para salvar vidas, isso é ainda mais evidente, porque as autoridades – em especial o presidente e seu ministro da Economia – não escondem que a vida dos trabalhadores e suas famílias será garantida na medida em que o capital permita!
Numa entrevista recente (a Helena Dias, do site Marco Zero), Antunes chamou atenção para uma distinção importantíssima: “essa tragédia [“os trabalhadores cheguem aos hospitais e não tenham atendimento mesmo se contaminando com o coronavírus e contaminando seus parentes”] não é causada pelo coronavírus, ela é amplificada exponencialmente pela pandemia. Porque a tragédia antecede a atual situação”. Sim, o coronavírus aqui se depara com uma situação que vinha sendo gestada há muito tempo, e justamente por isso que as melhores leituras desse momento serão aquelas capazes de entender os movimentos que trouxeram os trabalhadores e toda a sociedade a esse nível de vulnerabilidade. E serão as melhores não pelo que podem dizer a respeito das raízes da nossa tragédia, mas porque é aí que encontraremos uma saída para essa crise que interesse aos trabalhadores, imediatamente – e também para o futuro.
Ninguém sabia que, em 2020, além do enfrentamento com o pior governo da história deste país, teríamos ainda uma pandemia das mais violentas no nosso caminho. Entretanto, de alguma maneira, quem sempre resistiu a essas palavrinhas que prometiam a “modernização” tirando direitos dos trabalhadores – flexibilização, terceirização, pejotização, colaboradores, empreendedorismo etc. – sabia que a luta não seria fácil para as próximas gerações. E nunca foi. Mas talvez venha dessa pandemia, além de tanta tristeza, uma lição: se os trabalhadores não quiserem morrer de vírus ou de fome, devem se dedicar, como classe, em qualquer momento, ao desafio da emancipação e não aceitar nada menos que um novo modo de vida, em que o trabalho faça sentido dentro da vida, e não que a vida perca seu sentido dentro do trabalho.
Entrevista e redação: Tarso de Melo (1976) é escritor e advogado, doutor em Filosofia do Direito pela USP. Autor de Rastros (martelo, 2019), entre outros livros.
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Notas:
* A primeira versão desse texto foi publicada pela coluna Cult do UOL em 03 de abril de 2020.  Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/o-proletariado-em-tempos-de-pandemi…. Acesso em 03 de abril de 2020. 
** É Professor Titular de Sociologia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

Entrevista sobre a condição dos trabalhadores informais brasileiros mediante a crise do coronavírus

Brasile: I lavoratori informali nella crisi del coronavirus * * 
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Quale sarà, secondo Lei, l’impatto della pandemia del nuovo coronavirus nella vita dei lavoratori, ora che in Brasile sono state approvate la legge sull’esternalizzazione e le riforme del lavoro e della previdenza sociale?
Se si ha una classe lavoratrice stabile e dotata di diritti, qualsiasi decisione presa dai governi e dalle aziende deve fare i conti con tali diritti. Che cosa succede, però, quando i diritti dei lavoratori sono stati cancellati, specie a partire dal 2016? Questo è lo scenario che abbiamo oggi di fronte. Una massa enorme di lavoratori intermittenti costretti a lavorare otto, dieci, dodici e perfino quattordici ore al giorno. Costretti a lavorare, perché se non lavorano non hanno nulla. Un lavoratore di Uber, Rappi, Ifood e quant’altro, come farà ora? Che diritto ha di stare a casa e aspettare che questa tragedia passi? La élite politica, lo stato e il capitalismo brasiliano non gli garantiscono questo diritto. Ecco perché la chiamo schiavitù digitale [qui Antunes fa riferimento al suo ultimo libro O privilégio da servidão. O novo proletariado de serviços na era digital, Boitempo, 2018 – Il privilegio della schiavitù. Il nuovo proletariato dei servizi nell’era digitale]. Questi lavoratori sono imprigionati nell’informalità che caratterizza le piattaforme digitali. Su di loro si è costruita una gigantesca manipolazione che li definisce fornitori di servizi; non sono salariati e, di conseguenza, non possono avere diritti. Tutti i lavoratori uberizzati che ho intervistato erano metalmeccanici, ingegneri e perfino un veterinario. Tutti hanno detto che hanno bisogno di lavorare 12 ore, sette giorni su sette, per ottenere una media di 3.000 Reais netti [ndr. 550 €]. Le spese per la benzina, la pulizia, la sicurezza, la formazione, il cibo, il telefono cellulare, le applicazioni e tutto il resto, sono a carico del lavoratore.
Cosa faranno ora? In passato ho definito la società brasiliana di oggi “società dell’esternalizzazione totale”: è stato quando Temer, il signore delle paludi, ha dato il via libera all’esternalizzazione totale. Fu chiaro allora che si sarebbe gettata un’enorme massa di lavoratori nella tragedia. Questo quadro è stato accentuato dalla riforma del lavoro di Temer, che io definisco contro-riforma del lavoro. Il lavoro intermittente è ora considerato “legale” e “formale”. Ma si tratta di una legalità che legittima l’illegalità. È il formale che legittima l’informale. Bolsonaro ha fatto ciò che Temer non è riuscito a fare: lo smantellamento del welfare. C’è una massa enorme di uomini e donne che non ha modo di incontrare la formalità e si registra presso il Micro Entrepreneur Individual (MEI), che non è altro che un tentativo di coprire il sole con il setaccio. Chi lavora 12 ore al giorno non è un microimprenditore di sé stesso, ma un “proletario di sé stesso”. E la domanda è: “E adesso, José?”. Ci sono più di cinque milioni, alcuni parlano di cinque milioni e mezzo di giovani che lavorano con le applicazioni. Come faranno? Consegneranno forse il cibo quando tutti sono a casa? Viviamo in una società selvaggia che ha realizzato una corrosione senza limiti del lavoro e il risultato è una massa di individui privi di tutele e di assistenza sanitaria.
Ci sono quelli che lavorano con le applicazioni, ma esiste anche il commercio informale, dove spesso sono collocati gli immigrati e altri segmenti di popolazione, i più vulnerabili dal punto di vista economico e sociale. Come vede la situazione di queste persone di fronte allo scenario pandemico?
Si tratta delle estremità più precarie del sistema. Solo i disoccupati stanno peggio di loro, perché sono già in piena disperazione. Chi è collocato nel lavoro informale di strada è il tipo di lavoratore sottoutilizzato, che si dirige verso il lavoro informale perché non trova spazio nel mercato formale. Il Brasile ha il 40% della popolazione occupata nel settore informale, in diverse capitali del Nordest la percentuale supera il 50% e il 60%. Non è un caso che alcuni di questi lavoratori siano immigrati: è quello che succede in Europa o negli Stati Uniti. Il lavoratore immigrato è la punta più precaria del lavoro precario su scala globale. Un lavoratore lascia l’Africa, l’Asia, il Medio Oriente solo per andare in Europa o negli Stati Uniti, considerati “più sviluppati”, perché nel proprio paese vi è già una totale assenza di lavoro. Se il mercato formale, il mondo della valorizzazione del capitale, è a un punto morto su scala globale e il mercato azionario sta precipitando a livelli spettacolari, cosa succede con il mercato del lavoro informale? È l’assenza come tragedia. In primo luogo, abbiamo l’assenza di un acquirente, che si traduce nella mancanza di risorse minime per la sopravvivenza. La terza assenza è quella di un sistema di previdenza e sicurezza sociale e, come se non bastasse, c’è anche l’assenza di un servizio sanitario pubblico in grado di assistere i lavoratori informali. Il Brasile ha il Sistema Sanitario Unico (SUS), che è molto importante, ma nel corso del tempo è stato distrutto. La PEC, che vieta l’incremento delle risorse per la salute, l’istruzione e la sicurezza sociale, approvata durante il governo di Michel Temer, fa sì che i lavoratori e i loro familiari non ottengano negli ospedali alcuna cura anche se contraggono l’infezione da coronavirus. Questa tragedia non è stata causata dal coronavirus, precede la situazione attuale, ma è amplificata in modo esponenziale dalla pandemia.
Se confrontiamo la situazione brasiliana con quella dei paesi scandinavi, come la Svezia, o con la Danimarca dove i tassi di lavoro informale sono più bassi, le persone sono tenute a casa e saranno pagate, usufruiranno (in qualche misura) di un servizio sanitario pubblico. Nei paesi periferici come il Brasile, i lavoratori informali e precari vengono gettati per strada, e quelli colpiti più duramente sono gli immigrati e i neri. Se fossimo nei paesi dell’America ispanica, come la Colombia o il Perù, per esempio, i più colpiti sarebbero gli indigeni. Siamo sull’orlo di un profondo collasso sociale. Non è una novità perché il Brasile sta crollando. Abbiamo visto l’ex capitano Jair Bolsonaro andare alla manifestazione a sostegno del governo federale, proprio mentre è molto dubbio se egli sia contaminato dal virus o meno, in quanto non ha mostrato alcun documento rilasciato da una qualsiasi agenzia sanitaria che attesti la sua negatività… come ha potuto andare a un tale incontro e salutare la gente? Per non parlare della truffa e della dimensione irriflessiva di questi movimenti. Ci sono orde di fascisti e alcuni ingenui in mezzo a loro che, nei momenti di caos, cercano di creare agitazione: è una caratteristica molto importante del fascismo. Fu così in Italia e in Germania. Per quanto riguarda il Brasile, ci troviamo in una situazione tragica. Negli Stati Uniti, le grandi aziende cercano risorse per ridurre al minimo la tragedia. In Brasile il neoliberalismo ha un carattere devastatore, le aziende non pagheranno i lavoratori che non lavorano, tutti coloro che lavorano con le applicazioni non saranno pagati perché considerati fornitori di servizi. Il sistema di welfare sarà chiuso per loro, e la salute pubblica dipenderà dalle cure e dai letti esistenti nella precaria situazione della sanità pubblica, che è stata distrutta dai governi neoliberali in Brasile.
Aziende come Uber, 99, Rappi e Ifood hanno annunciato la creazione di fondi per i lavoratori contaminati e incapaci di lavorare nonché la distribuzione di kit igienici per chi lavora. Si nota che la preoccupazione è quella di mantenere i servizi funzionanti, non quella di garantire la salute delle persone che lavorano. Ritiene che queste misure corrispondano, a un certo livello, alle esigenze dei lavoratori?
L’unica soluzione possibile ora sarebbe quella di eliminare il PEC da fine del mondo e di smetterla con il porre limiti di spesa per la sanità, l’istruzione e il welfare. Le misure palliative sono inaccettabili. Kit d’igiene per il lavoratore disoccupato che torna a casa da una famiglia che potrebbe essere contaminata? Il minimo che dovremmo avere è la garanzia di uno stipendio pieno pagato dallo Stato. La cosa importante non è salvare le compagnie, perché abbiamo sentito: “Salviamo le compagnie aeree” (ma si salverà la compagnia senza licenziare nessuno?). Che senso ha dire “finanziare le aziende” senza dire che è loro proibito licenziare? Il problema centrale è che abbiamo una classe dominante senza igiene. Parlo in senso metaforico: intendo dire che è priva di un senso umano e sociale. In Francia, in Spagna, o anche nei tribunali di Londra, si sta cercando di stabilire che i lavoratori e le lavoratici che lavorano per le aziende delle applicazioni devono avere diritti sul lavoro. E quando non possono lavorare, devono stare a casa e ricevere contributi dallo Stato e dalla previdenza pubblica. Ma il nostro paese è stato completamente distrutto da un governo che ci sta portando ogni giorno di più allo sfascio. L’ordine del giorno è stato quello di mantenere un malgoverno che è un esempio di debacle inimmaginabile. Paulo Guedes (il ministro dell’Economia) è stato definito da un grande economista del capitale finanziario, uno che trae profitto dal capitale finanziario, un “liberista primitivo”. E chi paga il conto della borghesia primitiva sono gli operai e i lavoratori, e più sono privi di diritti, più questo processo sarà violento nei loro confronti. Non può durare a lungo, non c’è una società che sostiene così tanta devastazione. Nel dire questo non ho certo la sfera di cristallo. È il caso del Cile, dove sono già trascorsi quattro mesi dall’inizio delle proteste. Non c’è stata una settimana senza una manifestazione e la polizia agisce brutalmente perché l’esercito lì è fascista, la polizia è rimasta pinochetista. Poi arriva il massacro, e la popolazione risponde con più scontri.
Abbiamo visto la popolazione pretendere risposte efficaci per questa pandemia, sia attraverso i gruppi sia attraverso i social network, visto che parte della società oggi è dentro le case. In Portogallo, i lavoratori di un centro commerciale hanno protestato per avere il diritto di rimanere a casa e di non esporsi alla contaminazione. Pensa che in Brasile le rivolte della classe operaia possano intensificarsi?
Servirebbe un’analisi più approfondita per capire perché ci troviamo in questo quadro di relativa smobilitazione e apatia dei movimenti popolari. Quello che posso dirvi è: una cosa sono le rivolte e le ribellioni organizzate, un’altra cosa sono le rivolte e le ribellioni delle persone disperate, perché non hanno niente da mangiare, non possono muoversi o lavorare. E se sono anziani, non hanno una pensione. Il Cile è stato il modello che ha ispirato il sistema pensionistico di Bolsonaro e Guedes, i poveri anziani non hanno una pensione. Non ce l’hanno! Dopo decenni di lavoro, ricevono una somma irrisoria, che a volte è un terzo del salario che guadagnavano come lavoratori, che in tutta l’America Latina non è certamente alto. Anche senza avere canali di organizzazione, perché questi sono molto frammentati, arriva sempre il momento in cui i lavoratori si alzano in piedi. Se la popolazione sta morendo di malattia, ci si aspetta che muoiano senza reagire? Il film Bacurau è una bella metafora del mondo. Non c’era organizzazione nella metafora di Bacurau, è la fotografia della distruzione del paese. Arriva un momento in cui la popolazione s’indigna e, naturalmente, gli eserciti vengono a massacrare e trucidare. Ci sono circa 200 giovani in Cile che hanno perso la vista di almeno un occhio, lo sapete? La violenza della polizia e dei militari è così brutale che si concentra sugli occhi. Quello che succede in Brasile è che ci sono 12 milioni di disoccupati, cinque o sei milioni scoraggiati e sette-otto milioni sottoccupati. C’è anche il 50% di lavoratori informali e negli stati del Nordest, come nella città di Salvador, anche il 60%: sono indici reali, e non costruiti. Nel mezzo della pandemia la popolazione si renderà conto che questa può essere brutale in breve tempo: i dati provenienti dall’Italia mostrano che non sono solo gli anziani ad essere colpiti dalla malattia, ci sono dei giovani nei reparti di terapia intensiva degli ospedali del nord Italia. Arriva un momento in cui la popolazione, come in Bacurau, non ha più niente da dare. E andrà alla ricerca del gruppo che ha un nucleo di resistenza che strutturerà l’organizzazione per annientare l’invasore straniero. Un invasore desideroso di saccheggiare la ricchezza della nostra popolazione che lavora. Questa è la metafora che dobbiamo capire. Il film Parasite è un’altra metafora, perché la famiglia dei poveri coreani si è piegata il più possibile a una ricca classe media per ottenere il lavoro. Hanno fatto quello che dovevano fare, ma al momento della vendetta il padre della famiglia, che si era piegato per sostenere la famiglia, chi ha ucciso? Ha ucciso il responsabile di tutto questo, il suo capo. È simbolico. E non si può dire che fossero una famiglia di sinistra, erano semplicemente una famiglia di lavoratori che preparava scatole di pizza per la consegna. Il Brasile non è un paese docile, Gilberto Freyre con l’idea della cordialità ha contribuito a mascherare la realtà. Abbiamo una borghesia predatrice e la violenza fa parte del paese. Quante azioni militari sono state necessarie per far saltare in aria il Quilombo dos Palmares [una comunità di schiavi africani fuggitivi nel nord-est del Brasile]? E, allo stesso tempo, abbiamo molte storie di ribellioni in Brasile. Io non sto anticipando nulla, ma dovete ricordare che tre mesi fa la stampa citava il Cile come il più bell’esempio dell’America Latina. Ora, se si va in quel paese, tutto è saltato in aria, perché la popolazione si è stancata di sopportare. E ciò che ha causato questo sconvolgimento è stato l’aumento del biglietto della metropolitana, non la morte di 100 persone, ma l’accumulo di saccheggi e offese, di devastazioni sociali, di sottomissione e disumanizzazione, e di distruzione della dignità umana. Arriva un momento in cui l’uscita è la via del Bacurau, sapete? Non sto anticipando nulla. Ma dubito che una società possa essere devastata così tanto, senza limiti ed eternamente.
Siamo nel mezzo di una crisi pandemica che si verifica proprio nel momento in cui il neoliberismo avanza, il che significa una perdita di diritti e altre conseguenze sociali. Abbiamo contesti sociali nella storia recente del Brasile che possiamo paragonare al momento attuale?
Se questa conversazione avesse avuto luogo tra il 2011 e il 2013, direi che siamo in un’era di ribellioni spettacolari: la generazione Neet in Spagna, i precari inflessibili in Portogallo, Occupy Wall Street negli Stati Uniti, le esplosioni in Francia, Inghilterra e Grecia. Esplosione in diversi paesi del Medio Oriente. Abbiamo avuto un’era di ribellioni che non si è trasformata in un’era di rivoluzioni – ribellioni e rivoluzioni sono due cose ben diverse. Una cosa non è sinonimo dell’altra. Al contrario, un’era di ribellioni si è trasformata in un’era di controrivoluzioni. E abbiamo avuto l’elezione di Donald Trump, Boris Johnson in Inghilterra, e governi di estrema destra in Austria e Polonia. Attualmente viviamo in un’epoca di controrivoluzioni. L’onda viene dall’estrema destra, ma l’onda passa. Mi capisce? E sapete come può iniziare a passare? Trump ha buone probabilità di essere sconfitto dal coronavirus, da una crisi economica a cui non pensava di arrivare. E se Trump cade, Bolsonaro perde il suo idolo. I due sono grotteschi e molto farseschi. Parlo metaforicamente, ma se Trump perde le elezioni, il fascismo brasiliano perde il suo grande braccio del mondo. E potrebbe essere l’inizio di un’era di rivolte. Naturalmente il Brasile non è un’isola, la globalizzazione del capitale è anche globalizzazione delle ribellioni e delle lotte sociali. Ma la storia è imprevedibile. Scrivilo! È il professor Ricardo Antunes a parlare. Se fossimo nel 1988, e ti dicessi che l’Unione Sovietica sarebbe scomparsa, mi diresti che sono pazzo. Eppure, quella che era la seconda potenza del mondo è scomparsa nel giro di poche settimane. Perché la storia è spietata. Dove sono oggi Hitler e Mussolini? Nel cestino della spazzatura della storia.
Testo ricevuto da Il Cuneo Rosso
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Notas:
* A primeira versão desse texto foi publicada pelo Jornal La Bottega del Barbieri em 02 de abril de 2020. Disponível em: http://www.labottegadelbarbieri.org/brasile-i-lavoratori-informali-nella.... Acesso em 02 de abril de 2020. 
** É Professor Titular de Sociologia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

O que vem depois da crise? O Estado Social nos lembra o seu papel

Estado Social ainda pode operar como vetor para que a renda, o consumo e a proteção social reverberem em crescimento * ** ***
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A humanidade enfrentou diversas crises em sua história, associadas às disputas por poder político, por bases político-territoriais, por hegemonia econômica, entre outras causas. As crises tendem a convocar mudanças e ressignificações, situando a impermanência no centro da vida.
É sabido que os processos de crise do capitalismo no século XX provocaram uma reconfiguração paradigmática do Estado e de seu papel garantidor de direitos fundamentais, mediante a articulação do conceito de Estado Social de Direito. Assim ocorreu com a crise de 1929, nos EUA, em que o desastre financeiro dali resultante foi decisivo para o favorecimento de políticas sociais e de reformas econômicas estruturadas na intervenção do Estado na economia. Em dado contexto, foi formatada uma das políticas de intervenção social mais expressivas do período, o New Deal, desenvolvido a partir do referencial teórico de John Maynard Keynes – o denominado Keynesianismo.
Na mesma linha, em meados do século XX, os impactos causados pela segunda grande guerra também reorientaram a política estatal em torno da construção de um projeto de Estado de Bem-Estar Social, capilarizado em quase todos os países do ocidente europeu, à exceção de Espanha e Portugal, que somente ingressaram na fase democrática tempos depois, já na década de 1970, com o término de seus respectivos regimes fascistas.
Esse projeto de Estado Social de Direito basicamente se legitimou como o modelo de Estado predominante na Europa ocidental entre os anos de 1945 até aproximadamente o final da década de 1970, momento em que foi entrecortado pela difusão da política neoliberal com suas referências de restrição aos direitos sociais, de integração de mercados financeiros e de consumo desenfreado, até hoje prevalecentes.
Tudo indicava que o neoliberalismo permaneceria intacto num futuro próximo. Mas a crise do coronavírus rapidamente expôs as fragilidades e injustiças desse modelo, abrindo caminho para novas configurações.
Mais uma vez, a circunstância de crise nos ensina. E, nesse momento, ensina justamente a desaprender aquilo que a racionalidade neoliberal nos vinha fazendo naturalizar: as regras de mercado não podem resolver tudo e, se não forem limitadas e controladas pelos mecanismos de regulação estatal, como ensinou Karl Polanyi1, podem conduzir à degradação humana e ao colapso social.
Pierre Dardot e Christian Laval, quando apostam na conceituação do neoliberalismo como uma racionalidade que contamina os mais diversos aspectos das relações sociais e da vida humana, acertam ao perceber que há, sob a hegemonia neoliberal, não apenas um questionamento do papel do Estado, mas também do funcionamento de toda a esfera pública, do trabalho e das relações sociais construídas nos planos individual e coletivo2.
O neoliberalismo traz o esvaziamento do conteúdo político da esfera pública e de decisões pautadas em valores de humanidade, para que, de forma unilateral e autoritária, todas as decisões sejam regidas por um único vetor ideológico: os interesses abstratos do mercado e sua indiferença às formas de desigualdade e de vulnerabilidade presentes na sociedade.
Trata, também, do esvaziamento da regulação do trabalho e da tela pública de proteção social, sobretudo em tempos de intensificada tecnologia digital, em que o trabalhador é equivocadamente compreendido como “homem-empresa”, convocado a garantir os resultados dos seus investimentos, administrar os prejuízos e lucros, assumir riscos e oportunidades, numa linguagem que se distancia intencionalmente dos parâmetros das relações sociais concretas e das referências constitucionalizadas de cidadania plena e de proteção ao trabalho em condições de dignidade.
O neoliberalismo, assim, se perfaz como ideário que exacerba o individualismo, desfazendo, lentamente, os laços de solidariedade capazes de assegurar coesão ao tecido social em sua teia de relações construídas por heterogêneas realidades.
Foi esse o discurso que decretou a desconstrução do Estado Social, instituindo reformas desarticuladoras de seus mais importantes instrumentos jurídico-institucionais, caracterizadas por uma desatenção às questões sociais. Os exemplos são variados e presentes em escala global, destacando-se, no caso brasileiro, o inusitado engessamento, por emenda constitucional, por 20 anos, dos gastos do Estado, seguido das precarizantes reformas trabalhista e da previdência social, além de diversos outros diplomas normativos, também de caráter flexibilizatório, que as sucederam.
Desde meados da década de 1970 até a atualidade, a política neoliberal atingiu não só países desenvolvidos, mas principalmente países emergentes ou periféricos, que mantêm suas economias dependentes e posicionadas a reboque das grandes economias do globo. Nos países periféricos, a política neoliberal teve maior penetração, apresentando-se mais agressiva, porque, neles, a construção de uma práxis de cidadania democrática e de democracia política era em sua maior parte incipiente, com projetos ainda não inteiramente consolidados de promoção de direitos humanos, de desenvolvimento social e de proteção ambiental e cultural.
O neoliberalismo se afirmava como projeto inexorável e perene até que sucedeu a pandemia e, com ela, a crise.
O que se assistiu, então, foi um processo de estupefação coletiva diante da percepção da intensa dependência da sociedade em relação a uma estrutura estatal tão frágil. Diante do coronavírus, as leis de mercado, por não compartilharem projetos comuns de humanidade, tentaram fazer crer que o cuidado e a proteção são estritamente individuais: cada um que cuide de si e dos seus, na estrutura de sua vida privada. Como se o sentido de preservação e a sensação de paz estivessem apenas dentro de nossas casas (ou dentro de nós mesmos), numa perspectiva estritamente individualista. Esta seria a saída considerada possível. Aliás, a lógica individualista neoliberal corrobora esse pensamento ao se afigurar como treino para que o ser humano não desenvolva seu papel e consciência sociais, para que o outro continue sendo um estranho invisibilizado, preservada a distância de segurança.
Contraditoriamente, o isolamento social é a solução científica apontada para a contenção do vírus, como orienta a Organização Mundial de Saúde – OMS, mas só pode funcionar se essa for uma estratégia encampada de modo coletivo e igualmente por sujeitos em diferentes situações de risco. Esse caminho, ademais, se apresenta como de difícil operacionalização para pessoas inseridas em relações de trabalho precárias, informais e vulneráveis, que vivem em péssimas condições de moradia e desprovidos de saneamento básico e para quem o isolamento social não se afigura como alternativa, diante da demanda por garantia de subsistência.
É exatamente nessa circunstância de crise, impermanência, assombros e perdas que o Estado Social é convocado a atuar para redefinir os rumos da sociedade, rompendo fronteiras econômicas e sociais até então cristalizadas. Nenhum de nós quer perder os pais, os avós, a respiração ou o salário no fim do mês. E, nesse momento, não há como resolver questões tão intrincadas como essas sem a atuação do Estado. A ação é necessária e também se torna prenúncio de um tempo de virada.
Para fazer frente à grave crise provocada pelo coronavírus, alguns países estruturaram importantes políticas estatais intervencionistas, de variados matizes, dinâmicas complexas e múltiplas variáveis, numa lógica de atuação comunitária e focada na preservação da vida humana. O repertório internacional de medidas de enfrentamento da pandemia é, além de largo, contrário a tudo o que vinha pregando o receituário neoliberal. Agora, acertadamente, se fala em renda mínima para os mais vulneráveis e para os não alcançados pelo Direito do Trabalho; proteção trabalhista para que os empregados não se contaminem, não percam seus empregos e tenham assegurada sua inserção social e previdenciária durante a crise sanitária; saúde pública e universal para que todas e todos – independente de classe social, raça, ou gênero – possam ser prevenidos e cuidados em face da pandemia; gestão pública concertada e capaz de viabilizar, com oferta dos serviços essenciais, o respeito às prescrições de saúde coletiva, como o isolamento; investimento público para manter o funcionamento da economia durante o momento de retração da demanda e, sobretudo, na retomada das atividades, após vencida a crise sanitária.
Esse bem traçado projeto passa pelo pressuposto ético mais repetido no noticiário internacional: primeiro a vida, depois a economia. E o projeto de Estado de Bem-Estar Social, aperfeiçoado pelo modelo de Estado Democrático de Direito, se coloca como o caminho necessário justamente por pressupor que o funcionamento da economia decorre e serve à preservação e à valorização da vida humana, e não o contrário.
Com estrutura pública de suporte aos complexos arranjos sociais diante da crise viral que nos assola, o Estado Social ainda pode operar como vetor para que a renda, o consumo e a proteção social reverberem em crescimento econômico, até que finalmente chegue a bonança.
Assim, a capacidade de reinventar o presente e o futuro, como tempo propício à revitalização dos projetos de vida, à construção de relações sociais menos desiguais e ao cumprimento de expectativas civilizatórias, nos fortalece enquanto todo social unido por vínculos de solidariedade, num conjunto no qual o Estado Social tem um papel que, mais uma vez na história da humanidade, se mostra imprescindível.
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Notas:
* A primeira versão desse texto foi publicada no JOTA em 08 de abril de 2020. Disponível em: https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/o-que-vem-depois-da-cris.... Acesso em 08 de abril de 2020. 
** Gabriela Neves Delgado – Professora Associada de Direito do Trabalho da Faculdade de Direito da UnB. Pesquisadora coordenadora do Grupo de Pesquisa Trabalho, Constituição e Cidadania (UnB/CNPq).
*** Renata Queiroz Dutra – Professora Adjunta de Direito do Trabalho da Faculdade de Direito da UnB. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Trabalho, Constituição e Cidadania (UnB/CNPq).
¹ POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens de nossa época. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011.
² DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.